Educação Corporativa
Qual é a sua desculpa para a falta de diversidade?

Qual é a sua desculpa para a falta de diversidade?

Costumamos exaltar o Brasil por sua pluralidade cultural. Por aqui, o convívio de pessoas de todas as tribos, cores e grupos é muito bonito na teoria, porém a realidade é bem menos agradável: o Brasil ainda é um país cheio de preconceitos — sejam eles por motivos de gênero, etnia, orientação sexual, idade, deficiência e por aí vai. Esses preconceitos são particularmente amplificados no ambiente de trabalho. Nesse artigo vamos abordar os três primeiros grupos e mostrar como a teoria não está sendo aplicada, representando a falta de diversidade.

Gêneros

Vamos começar pela desigualdade de gêneros. Costumamos pregar a igualdade de oportunidades de emprego como um dos principais pontos a serem atingidos. E, pelo menos no universo das melhores empresas para trabalhar no país, estamos muito próximos da igualdade — se olharmos de forma geral. Contudo, quanto mais alto na hierarquia das empresas, mais escassa se torna a participação das mulheres. E, aqui, ouvimos todos os tipos de desculpa para não ter profissionais do gênero feminino na alta liderança: é alegado que elas estão menos dispostas à mobilidade, que podem se afastar por longos períodos de tempo por conta de gravidez, e até argumentos absurdos como mulheres transmitem menos credibilidade que homens para investidores que são, em sua grande maioria, (adivinhem?) homens.

E ainda temos a questão dos salários. Mesmo entre as empresas do prêmio GPTW Mulher 2017, elas ganham um salário cerca de 28% menor que eles. Tentativas de justificar esse fato vergonhoso também não faltam e, assim como as citadas acima, são produtos de uma sociedade desigual por definição e ignorância.

Etnia

Falando em ignorância, já passou da hora de desmistificar um dos principais argumentos para a desigualdade étnica no trabalho: “existem menos pardos e negros nas lideranças das empresas porque trata-se de uma população mais pobre e que, portanto, têm menos acesso à educação”.

Em primeiro lugar, isso não é justificativa; é mais um ponto que mostra que há algo em nossa sociedade que precisa ser melhorado imediatamente! E, para os que continuam negando a realidade, vamos aceitar esse argumento (inaceitável) por um minuto, só para mostrar que ainda assim, ele não se sustenta.

Segundo dados levantados pelo DIEESE, 11,8% da população negra que está trabalhando possui Ensino Superior Completo. Entre os não negros, o número pula para 23,4% — quase o dobro. Mais uma vez, olhando superficialmente, o argumento parece fazer sentido. Combine isso com dados da Previ (fundo de pensões do Banco do Brasil) que apontam que apenas 2% dos cargos de média e alta liderança nas 114 maiores empresas do Brasil são ocupados por pardos e negros.

Ou seja, existem basicamente o dobro de brancos graduados que negros no mercado, porém existem 49 vezes mais brancos em cargos de liderança. O engraçado é que a maioria das empresas vai afirmar ter programas de combate à discriminação e desenvolvimento profissional para funcionários de raça não caucasiana. Mas fica aqui o recado: não adianta ter programas e práticas que não funcionam.

Além disso, considere dados da mesma pesquisa do DIEESE, que mostra que a diferença salarial entre brancos e negros na indústria e no comércio passa de pouco menos de 20% (a mais para os brancos, obviamente) entre funcionários sem o Ensino Fundamental para quase 40% entre funcionários com Ensino Superior.

Orientação sexual

Para finalizar o show de horrores: a empresa de recrutamento e seleção Elancers realizou uma pesquisa com recrutadores que revelou que 7% das empresas não contratariam um candidato homossexual em hipótese alguma, e 11% só contratariam se o candidato jamais pudesse chegar a um cargo de visibilidade, como executivo.

Ou seja, se você é homossexual e quer ter um emprego com perspectivas de crescimento, uma em cada cinco empresas do país não é para você. E não é só aqui no Brasil! A Universidade de Harvard conduziu um experimento em que enviou currículos praticamente idênticos para cerca de 1.700 recrutadores, com apenas uma pequena diferença: em metade desses currículos, também foi adicionado que o candidato teve experiência como tesoureiro do grupo LGBT da faculdade.

O resultado? Quatro vezes mais convites para uma entrevista entre os recrutadores que receberam o currículo sem a informação. E os problemas não param na contratação: a pesquisa LGBT Out Now mostrou que no Brasil apenas 3 entre 10 executivos gays falam abertamente sobre sua orientação sexual com colegas de trabalho. Sinal de que eles têm medo de sofrer consequências caso o seu “segredo” seja descoberto.

Isso impacta também no bolso das empresas: a mesma pesquisa mostra que entre funcionários homossexuais assumidos, 75% afirmam sentirem-se produtivos. Entre os não assumidos, o número cai para 46%. E o motivo é óbvio: fica difícil conseguir se dedicar completamente ao trabalho quando a maior parte do seu foco está voltado em precisar fingir ser alguém diferente do que se é.

E ainda nem falamos de transexuais, que poucas esperanças têm de sequer arrumar algum espaço no mercado de trabalho, ainda mais um trabalho decente com qualquer tipo de perspectiva. O que, é claro, tem consequências graves: segundo a ANTRA – Associação Nacional de Travestis e Transexuais, 90% de travestis e transexuais recorrem à prostituição como forma de se sustentar.

Então, chega de falar que no Brasil não tem machismo. Ou racismo. Ou homofobia. Tem tudo isso, e em doses alarmantes — dentro e fora do ambiente de trabalho. Afinal, tudo isso que citamos não existiria em uma sociedade livre de preconceitos. Chega de desculpas para a falta de diversidade.

O primeiro passo para solucionar um problema é admitir sua existência. Esse é o primeiro passo que deve ser tomado não só pelas empresas brasileiras, mas também pela sociedade de uma maneira geral.

Casimiro Perez

Trabalha no Desenvolvimento de Produtos e é Especialista em Diversidade e Inclusão no GPTW Brasil. Formado em Comunicação Social, na UNESP/Bauru, com especialização em roteiro (Cinema e TV) pela NYFA, em Los Angeles, CA e MBA em Marketing Digital, pela…

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